HOMEM MORRE SENTADO NA CADEIRA DE RODAS ESPERANDO ATENDIMENTO

 HOMEM EM SITUAÇÃO DE RUA MORRE SENTADO NA CADEIRA DE RODAS ESPERANDO ATENDIMENTO NA UPA

HOMEM MORRE SENTADO NA CADEIRA DE RODAS ESPERANDO ATENDIMENTO

Um homem em situação de rua morreu sentado em uma cadeira de rodas, na recepção da UPA do Recanto das Emas, sem que ninguém soubesse dizer durante quanto tempo ele esperou. Esse é o fato. O resto, a demora em admitir o óbito, o silêncio das autoridades, é o que transforma uma tragédia isolada em sintoma.


Pacientes e acompanhantes chegaram a alertar a equipe de plantão sobre a situação do homem antes da confirmação da morte, sem obter resposta imediata. Mais grave: um profissional teria inicialmente negado o falecimento diante das pessoas presentes, o que levantou suspeitas de que se tentava remover o corpo antes da chegada da polícia. Pacientes precisaram se posicionar diante do corpo para impedir a remoção, a imagem de um sistema mais preocupado em administrar a aparência do que a vida.


O Iges-DF informou que a vítima, sem identidade revelada, não possuía ficha de atendimento aberta na data da ocorrência. A nota é tecnicamente correta e politicamente reveladora: descreve, com precisão burocrática, a anonimização de uma morte. Um homem pode permanecer horas em uma recepção pública, à vista de todos, e ainda assim não existir nos registros do próprio serviço que deveria atendê-lo. Não se trata de episódio isolado: a saúde pública do DF vive, há anos, sob o mesmo roteiro de filas, unidades sobrecarregadas e surtos sazonais que bastam para empurrar o sistema ao limite.


Celina Leão, que assumiu o comando do GDF após a saída de Ibaneis, herda uma estrutura que não foi construída, nem destruída, em poucos meses. Mas herdar não é estar isenta. Governar é decidir o que se prioriza quando o orçamento é finito e a demanda, infinita. A cena expõe que, para quem não tem ficha, nem voz, a prioridade continua sendo a última da lista, mesmo dentro do prédio que deveria garantir o oposto.


Isolar a área, abrir inquérito: tudo é protocolo, e será cumprido. O que o protocolo não resolve é a pergunta de quem usa o sistema público todos os dias: quanto tempo é preciso esperar, visível a todos, para que alguém note que algo está errado? A resposta, neste caso, foi: tempo demais.


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